O sonho mais real que eu já tive ainda estava passando diante de meus olhos enquanto eu sentia a claridade entrando pelo meu quarto. Então aquelas "pessoas com túnicas pretas" ontem a noite eram todas parte de um sonho? Tudo bem, eu podia aceitar isso. Mas, e as vozes no parque? Essas não foram sonhos, se fossem eu ainda estaria na minha antiga casa. Algo ainda cheirava a macabro no ar."Hoje! Sim, hoje! Amelie chega hoje de Paris! Que felicidade!" Foi o que pensei quando decidi não pensar nas vozes do parque. Olhei para o relógio para ver que horas eram. Eu havia combinado de esperá-la no aeroporto as dez horas da manhã, enquanto John começava a arrumar o churrasco. Já eram nove horas. Eu demoro um século pra me arrumar e leva em torno de vinte minutos até chegar ao aeroporto. Ótimo!
Troquei de roupa correndo, peguei a primeira bolsa que vi pela frente, coloquei um par de meias, escova de cabelo e uma balinha de hortelã, peguei meus tênis na mão e desci para chamar minha mãe para me levar. Ela não estava no quarto.
-Mãe! Mãe! - Comecei a chamar desesperadamente enquanto descia mais escadas, sem me importar se iria acordar meu pai ou meus irmãos. No momento Amelie era o que importava.
-Estou na cozinha querida! Não grite, vai acordar toda a vizinhança. - Me respondeu em voz baixa.
-Mãe, temos que ir encontrar Amelie lembra? Vamos nos atrasar! Vamos, vamos! - Disse chamando-a para a garagem.
-Keithy, ela ligou faz uns quinze minutos, pediu desculpas por não ligar antes, e disse que os pais dela resolveram ficar mais duas semanas lá, e que ela só vai voltar para o primeiro dia de aula. Disse que vai os recompensar com muitos presentes.
-Ah, tá. E, ela disse se avisou o John?
-Ela tinha acabado de ligar pra ele.
-Ok, então, vou achar alguma coisa pra ler.
Não era um bom dia pra sair de casa. Apesar de claro, o dia estava nublado e ia chover a qualquer momento. E eu estava morrendo de preguiça de sair de casa por outro motivo que não fosse Amelie.
-Espere! Tem uma carta pra você, está ali na mesinha do telefone. - Ela falou, ansiosa para saber o que era.
"Que palhaçada é essa?" Pensei quando vi um envelope lilás ao lado do telefone.
Peguei-o com certo medo. No lugar do endereço havia apenas as palavras: "Makrol High School and University" e o selo era do Alaska.
Abri-o com cuidado e um tanto quanto desconfiada, achando que fosse alguma piada da minha mãe por eu falar tanto de estudar no Alaska.
Dentro havia uma carta, feita de papel roxo com letras que lembravam aquelas letras feitas com canetas feitas de penas de antigamente. Dizia:
" Convite Roxo
A Makrol High School and University tem prazer em convidá-la, Katheryne Rathbone, a juntar-se a nós.
Devido ao seu excelente desempenho escolar, nós a escolhemos para fazer parte de nossos projetos de pesquisa e desenvolvimento de trabalhos tecnológico desempenhados no Alaska.
Gostaríamos que entrasse em contato no número que está no final da página, para marcarmos uma reunião com seus responsáveis para que possamos explicar melhor sobre os trabalhos e sobre a própria Makrol H.S.U.
Agradecemos desde já pela atenção e esperamos por seu retorno.
065-88-75249587"
Ok. Só pode ser brincadeira uma coisa dessa. Mas, Convite Roxo? Quem sabia sobre meu sonho?
Liguei imediatamente para o número do convite.
-Makrol High School and University bom dia. Com quem falo?- Uma voz simpática soou do outro lado da linha, era uma voz feminina, do tipo "oi, sou a secretaria, como posso ajudar?".
-Bom dia, sou Katheryne Rathbone, recebi ...
-Só um minuto por favor. - Me interrompeu, e a linha ficou muda até que uma voz conhecida dirigiu-se com entusiasmo a minha pessoa.
-Katheryne! Estava ansioso por sua ligação! Que bom que chegou bem ao seu quarto. Vamos marcar a reunião? - Eu conhecia aquela voz, mas era inaceitável admiti-la.
-Com quem estou falando? - Perguntei com medo da resposta.
-Ora! Não faz duas horas que conversamos, Herick, se lembra? - Era a resposta que eu temia.
-Oh! Sim, sim. Desculpe, estou meio sonolenta ainda. Bom, essa reunião... - Ainda incrédula, resolvi descobrir um pouco mais.
-Deixe-me falar com sua mãe, por favor. Eu e você conversaremos mais tarde, não há tempo Katheryne, deixe-me falar com ela. - Disse Herick apressado.
-Só um minuto Herick. - Disse o nome dele em voz alta pela primeira vez. - Mãe, a senhora pode vir aqui um pouco?- Chamei-a em voz baixa, pois sabia que ela estava ouvindo minha conversa.
-Sim querida? - Respondeu imediatamente, já no meio da sala.
-Deixe que eu explico sobre o colégio, fique com o Convite Roxo.- Disse Herick no telefone.
-Bom, fale com Herick, ele irá te explicar. - Passei o telefone pra ela com certo medo.
Enquanto ela falava com Herick no telefone, mais ouvia do que falava é claro, eu observava as mudanças em seu semblante. Ela estava completamente orgulhosa, via-se em seu rosto.
-Sim, sim. Às sete horas. Nós o aguardaremos Sr.Herick. Tenha um bom dia. - Disse desligando o telefone. -Que orgulho! Durante sua vida toda eu não disse que você seria recompensada pelo seu esforço? Oh! Como estou feliz!- Disse me abraçando. - Você ouviu não é? Sete horas estaram aqui para a reunião, esteja impecável. Mas, Alaska Keithy? Bom, você sempre quis isso mesmo. Agora, vamos ver se o Senhor Rathbonedireção as escadas.
-Ah, o John vai almoçar conosco. - Disse da escada.
Comecei a preparar uma xícara de café com a água que já estava fervendo no fogão, enquanto pensava no que estava acontecendo.
"Ou eu ainda não acordei, ou tudo aquilo de ontem a noite não foi um sonho."
Estava tão distraída tentando decifrar qual das duas opções era a real que nem percebi que a xícara já estava cheia, então, senti aquela água quente escorrendo pela minha mão e derramando no meu pé. Comecei a gritar de dor. Estava queimando muito. A dor era insuportável. Meus pais apareceram correndo. Minha mãe já foi pegando todo o gelo do congelador e do freezer enquanto meu pai ia buscar a pomada para queimaduras.
-Onde estava com a cabeça Keithy? No mundo da lua? Que lindo né? Agora vai receber seus futuros educadores toda queimada. - Disse minha mãe reprovando-me.
O mundo da lua era uma boa opção enquanto eu não sabia o nome do lugar pra onde eu ia. Ah! Não era Mundo Escondido? Que ridículo! Pelo menos Alaska eu tinha certeza que não era. Só pra não esquecer. Isso, definitivamente, não era um sonho.
-Eu estava, distraída. Desculpa. - Disse sem acreditar no que eu tinha feito.
-Não precisa se desculpar. Eu me desesperei quando te ouvi gritar. Parecia que, a, sei lá, que alguém tinha entrado aqui. Aliás, você teve pesadelos essa noite? - Respondeu mudando de assunto.
-Não que eu me lembre, por quê?
-Você gritou algumas vezes, pediu socorro, e gritou como se tivessem abafando sua voz com um travesseiro. Eu e seu pai subimos correndo pra ver o que estava acontecendo. Nós te acordamos, você não lembra?
-Não, não me lembro. Ah, mas deixa pra lá.
Fui pro meu quarto, e assim que cheguei lá, ouvi a voz do John. Eu sabia que minha mãe ia mandá-lo lá em cima, então nem tive o trabalho de chamá-lo.
-Oi Keithy. - Disse John alegremente como sempre.
-Oi John! Acho que vai ficar com fome, minha mãe nem começou o almoço ainda. - Respondi esperando a piada que ele faria.
-Não tem problema, temos mão assada pelo que estou vendo, ops, acho que queimou. Prefiro carne mal passada, é, vou ficar com fome mesmo. - A piada já esperada.
Nós dois rimos.
-Você anda muito distraída ultimamente, que anda acontecendo com você? - Perguntou-me preocupado.
-Ah, não sei. Apenas, saio de órbita as vezes.
-Está apaixonada e não me contou né? Mancada sua. - Falou rindo.
-Claro, apaixonada pelo vizinho, sabe, aquele velhinho que vive de verde? - Mais risos.
-Posso dar minha opinião?
-Lá vem John com suas ideias absurdas.
-Eu acho que você está precisando se apaixonar de novo. Dês de McPerson você não se apaixona por ninguém, não namora ninguém. - Ele me fez lembrar de algo que eu não queria.
-Do jeito que você fala parece que eu namorava muito antes dele né? - Falei rindo pra tentar desviar o assunto.
-Ah, não né. Mas você tinha suas paixonites, e agora, nem isso. - Ele falou triste por mim, e eu fiquei calada, sabia que era verdade.
-Você ainda pensa nele não é? - Perguntou pedindo um não de resposta.
-John! Você sabe que não, isso faz mais de um ano! Se eu o visse todo dia ainda, mas ele é vizinho do teu pai! Fica tranquilo, de Lyoneil McPerson eu estou curada. - Falei contente com minha conquista. Ou desconquista, o que preferir.
A verdade era que eu não tinha parado de pensar nele a tanto tempo quando dizia pra John e pra Amelie. Fazia uns seis meses que eu podia ouvir seu nome sem ter saudades. Mas fazia dez meses que eu o tinha fora de meus pensamentos para John e Amelie. Acho que nunca os enganei de verdade. Mas eles me deixavam fingir.
Eu o conheci em um acampamento que a família de John fez em torno de um ano e meio atrás. Sua mãe quis acampar nas férias com John, e como era época dele estar na casa do pai, resolveram ir acampar todos juntos, e pra não ficar aquele clima de "família feliz e unida" levaram Lyoneil, amigo de infância do John também, mas lá da cidade de seu pai, eu e Amelie. Lyoneil, assim como John, é dois anos mais velho que eu e Amelie. Nós nos entendemos muito bem, e nos identificamos em quase tudo. Ele era fofo, romântico, engraçado, e todas essas coisas que fazem as garotas se apaixonarem. Foi assim que começamos a namorar. E foi nesse acampamento que eu comecei a desconfiar de algum sentimento além de amizade entre John e Amelie, mas nunca disse isso a ninguém. Voltando a Lyoneil e eu. Nós começamos a namorar a distância. Ficamos assim durante quatro meses. Sempre marcávamos de nos encontrar mas nunca dava certo. Então decidimos terminar o namoro. Na verdade ele decidiu. Eu sabia que eu estava sofrendo longe dele, e seria melhor terminar o namoro, mas eu nunca tive coragem, eu o amava de mais para isso. Mas passou, e em momento algum eu pensei que nunca conseguiria amar outra pessoa como o amei. E agora, falar dele não me dói, não me trás saudades, nem nada. Apenas lembranças de um sentimento sincero que foi perfeito enquanto durou, por mais que quase tenha me matado de angústia depois.
-Ok, ok. Então, o que é aquele envelope em suas mãos? - Ele perguntou sobre o Convite Roxo, que eu ainda não havia tido coragem para largar.
-Ah, bom. Eu fui convidada para entrar em um colégio e universidade chamado Makrol. Eles fazem pesquisas e desenvolvem trabalho diversos. Me escolheram pelo meu desempenho escolar. Acho que viram o desempenho da pessoa errada. - Disse me divertindo pela meia verdade e por ter conseguido sair do assunto sobre McPerson.
-Nossa! Que incrível Keithy! Eu sempre soube que eu tinha uma amiga gênea. - Riu ironicamente. - E onde é?
Houve silêncio no quarto. De toda a felicidade, os risos e a empolgação do momento, acabou sobrando apenas meu olhar virado pro chão e o de John em mim. Eu não tinha percebido que eu ia abandoná-los. Como eu poderia viver sem eles? Sempre foram meu alicerce, meu refúgio, meus protetores, minhas metades desconhecidas. Como eu conseguiria me despedir deles?
-Keithy? Onde é a tal da Makrol? - Repetiu a pergunta tirando-me de meus pensamentos que estavam me levando rumo a uma crise de pânico.
-Alaska. - Eu disse séria, engolindo em seco e quase chorando.
Toda a curiosidade dele sumiu. Sua expressão foi de completo arrependimento por ter perguntado isso. Ele não estava acreditando. Assim como eu não estava acreditando no que eu faria.
-Me deixa ver o envelope?- Pediu secamente.
Por um instante pensei que ele ia rasgar o envelope e começar a gritar estericamente comigo. E talvez eu quisesse isso, talves eu merecesse isso. Mas não, ele percorreu com os olhos cada centímetro daquele envelope, e cada centímetro da carta roxa, como se reconhecesse esse papel.
-Acho que você e McPerson vão se reencontrar. - Disse ainda sério e de olhos fixos na carta.
-Como é? - Perguntei sem entender o que ele queria dizer com aquilo. Nós já não tínhamos terminado o assunto sobre Lyoneil?
-É, a dois anos atrás ele recebeu um Convite Roxo idêntico a esse. Ele passa as férias de final de ano aqui e as do meio do ano lá. É engraçado ele contando. Parece que o natal lá é no meio do ano. Ele tem dois "natais" por ano. - Disse rindo mas sem muita animação. - Pelo pouco que ele me fala, é um colégio ótimo. Eu queria muito estudar lá, por isso não vou te dizer pra não ir. Vai atrás do seu futuro, porque isso - mostrou o Convite - não vai te esperar pra sempre, mas seus amigos, pelo menos eu e tenho certeza que Amelie também, vamos estar sempre, SEMPRE aqui te esperando. - Ele disse com os olhos cheios de lágrimas.
Eu o abracei e comecei a chorar, e ele também chorou. Ele ficava lindo quando chorava, seus olhos castanhos ficavam esverdeados, e toda malícia, zombaria, ou qualquer coisa ruim que ele pudesse mostrar em seu rosto, tudo sumia deixando espaço apenas para o sentimento explícito e para o verdadeiro John Tyler.
Nós passamos o dia todo conversando no meu quarto e na hora da reunião com Herick, John estava junto.
Herick falou sobre vários projetos e planos da Makrol H.S.U. e meus pais ficaram encantados. Falou sobre os custos, os quais são mínimos, apenas para o material básico, como cadernos e apostilas. Os materiais para aulas práticas eram gratuitos. Ah, e uma pequena taxa para minha estadia, já que todos moravam lá. O uniforme era confeccionado lá mesmo, e era feito de trabalho voluntário e doação de tecido, por isso, era gratuito também. Meus pais assinaram minha matrícula, entregaram o primeiro cheque e marcaram a data de minha partida. A aula começava em uma semana, então, em quatro dias eles viriam me buscar, para que eu pudesse me instalar e estar descansada para o começo das aulas.
O John ficou super animado, mais que eu se duvidar. Ele estava super feliz. Como Amelie não ia chegar a tempo para me despedir dela, ele ficou encarregado de passar as novidades para ela e deixar uma carta de saudades que eu escrevi. Ele me prometeu consolá-la também. Acho que minha mudança ia contribuir para algo.
No quarto dia depois da reunião, minhas malas estavam todas prontas, as seis da manhã. John tinha dormido lá em casa para poder se despedir melhor de mim.
Seis e meia da manhã Herick veio me buscar para minha nova vida.
Chorei me despedindo de todos, principalmente de John e de Kevin, os homens da minha vida.
Eu sabia que para onde eu estava indo não era Alaska, e nenhum lugar conhecido no mapa. E eu estava doida pra conhecer tudo. E assim que chegamos no aeroporto, minha nova vida começou bem hilária.